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21 de Setembro de 2017

Trabalhadora que sofreu AVC por conta de assédio moral receberá R$ 400 mil de indenização

O clima era de terror no ambiente de trabalho e havia humilhações frequentes. A afirmação é de uma das testemunhas ouvidas pelo juiz do trabalho Átila Da Rold Roesler em processo que condenou uma clínica de odontologia da cidade de Sorriso (420 Km de Cuiabá) e um de seus dentistas a indenizar em 400 mil reais uma ex-empregada que sofreu Acidente Vascular Cerebral (AVC) após um dos muitos episódios de assédio moral que sofria em serviço. A decisão foi publicada na última sexta-feira (29).

Conforme comprovado pelo juízo, os assédios eram cometidos pela superior hierárquica da trabalhadora, que além de sócia-proprietária também representou a empresa nas audiências. O juiz condenou o dentista e a clínica de forma solidária por ambos se beneficiarem dos serviços prestados pela ex-empregada. O processo tramita na Vara trabalhista do município sede da empresa desde janeiro deste ano.

O magistrado tomou por base o testemunho de duas colegas da ex-empregada que confirmaram a pressão existente no trabalho. Além da fala descrita na abertura do texto, ainda foram destacadas na decisão trechos dos depoimentos que reforçam as agressões psicológicas: Toda vez que a reclamante ia cuidar da agenda [da superior], voltava alterada, disse a outra testemunha, acrescentando que era perceptível como ela ficava constrangida e nervosa após as reuniões.

A relação entre os abusos e o quadro de AVC sofrido pela trabalhadora foi confirmada pelo médico perito que analisou o caso, sendo o diagnóstico decisivo para que o magistrado condenasse a clínica e o profissional. Segundo o laudo, o estresse no trabalho foi fator desencadeante da hemorragia intraparenquimatosa cerebral, por provocar uma crise hipertensiva e consequente ruptura do caso cerebral causando o sangramento.

É certo que o poder diretivo do empregador, enquanto titular do empreendimento econômico, não autoriza o abuso de direito, traduzido em práticas ofensivas aos direitos da personalidade dos trabalhadores, lembrou o juiz Átila Da Rold Roesler, destacando que nos dias de hoje não há mais espaço para humilhações perpetuadas no âmbito da empresa ou de práticas que causem transtornos psicológicos ao trabalhador. O empregado aliena apenas a sua força de trabalho e não a sua alma ou os seus sentimentos ao detentor do capital. Assim é que a sua condição de pessoa humana deve ser valorizada conforme os princípios eleitos como fundamentos da República na Constituição Federal de 1988, assentou.

Indenizações

A título de danos materiais devidos à trabalhadora, o magistrado arbitrou o valor de 250 mil reais. O montante considerou o salário recebido pela ex-empregada, os custos com o tratamento médico, as dificuldades que ela terá para se realocar no mercado de trabalho, visto as dificuldades em se adaptar a outra função já que ficou com a memória seriamente prejudicada, bem como a idade e atual condição física (perdeu 50% da sua capacidade laborativa).

Conforme destacou o juiz, o laudo pericial indicou que a conduta da sócia-proprietária da empresa não contribuiu de forma única para o AVC sofrido pela trabalhadora, existindo outros fatores genéticos e de pré-disposição. Assim, entendeu ser o nexo concasual.

Já pelos danos morais, o dentista e a clínica deverão pagar outros 150 mil reais devidos pela doença ocupacional desenvolvida após a conduta negligente da reclamada e também pelo grave trauma que a trabalhadora acabou sofrendo. O magistrado salientou que o montante não compreende as indenizações pelos episódios de assédio, mas apenas pelas consequências do AVC, visto que não foram requeridos pela ex-empregada no pedido inicial.

Laudo complementar

A defesa dos condenados negou que tenha ocorrido a assédio no ambiente de trabalho e ainda contestou o posicionamento do médico perito oficial, apresentando laudo complementar contrário a decisão. O magistrado então abriu oportunidade ao perito para manifestação, que manteve a conclusão de seu parecer e ainda reforçou os argumentos pelos quais acabou reconhecendo o nexo concausal, ou seja, a relação entre as agressões cometidas e as lesões sofridas da trabalhadora.

(Processo 0000101-18.2013.5.23.0066)

43 Comentários

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Interessantíssimo esse artigo...o magistrado que julgou está de PARABÉNS, pois condenações nesse montante ajudam a inibir empregadores de continuarem a praticar o assédio moral no ambiente de trabalho! continuar lendo

Apesar de não ser advogado, admiro profundamente esta profissão, principalmente daqueles que conscientemente defendem pessoas que realmente são donas das razões, mesmo porque todo, ADVOGADO sabe se seu cliente é inocente ou não, daí se eu fosse um advogado, jamais defenderia um CULPADO. continuar lendo

Sua razão, é o meu motivo para não atuar na área penal, indistintamente. continuar lendo

Advogado defende os interesses do seu cliente.
É só pensar de duas formas: a primeira como se você fosse adv do empregador que vai ter que pagar o montante a empregada, e a segunda é como a empregada que vai levar sequela para o resto da vida.... continuar lendo

Além do brilhante apontamento da Camila, o advogado criminalista não defende um culpado, ao menos não até a prolação da sentença final condenatória, porém, um acusado, para lhe garantir apuração idônea e objetiva da eventual culpabilidade e seu grão, tanto quanto aplicação correta do direito. Objetivo primordial da reação criminal é resocialização do delinquente e o inssucesso não se atribui a defesa, porém, ao sistema social, educativo e carcerário, embora talvez da legislação. O advogado criminalista não defendo o crime, mas legítima prevenção e repreensão do mesmo. continuar lendo

Muito interessante este caso e a decisão. Como advogada achei justo o valor arbitrado a título de danos, todavia, como ser humano, não existe valor para mensurar o que essa Reclamante deve ter vivido em seu antigo emprego. Infelizmente muito se vê disso ainda: empregadores que acham que estão em regime recém abolição da escravatura e empresados que, infelizmente, desconhecem a legislação, não sabendo que são mais amparados do que imaginam. continuar lendo

O sangramento intraparenquimatoso é multifatorial e poderia ter ocorrido defecando, subindo uma escada ou numa relacao sexual. Faltou o contraditorio, faltou assistente tecnico para a empresa. continuar lendo